• Marcio Funchal

“Apertem os Cintos: Meu planejamento sumiu”

Atualizado: 25 de Ago de 2020

Artigo publicado originalmente na Revista O Papel/ABTCP - Coluna Gestão e Estratégia



Que 2020 tem sido um ano de adversidades, não há absolutamente ninguém que possa questionar. O mundo de hoje ainda tenta compreender os impactos no dia a dia dos cidadãos, das empresas e dos governos. Mas se a complexidade do presente momento já é difícil de avaliar e descrever em muitas circunstâncias, imagine você, caro leitor, tendo a árdua tarefa de construir cenários para os próximos anos. È nesse contexto que o presente artigo se apoia.


O ano de 2020 tem representado um momento importante de ruptura do modo de vida. O impacto do COVID-19 sobre as relações das pessoas e se seus hábitos de consumo é tão profundo que praticamente todas as grandes potências econômicas mundiais ainda tentam compreender com mais profundidade os danos causados em cada país, ao redor do globo.


O que se sabe de concreto, pelo menos no imaginário coletivo dos principais analistas de negócios, é que o modo como o mundo globalizado se comportava até então não será mais o mesmo desde agora. E não cabe discutir quando virá o novo “normal“... o novo jeito de viver é o “agora”, ele já está acontecendo. As dúvidas que se têm se referem aos seus efeitos e desdobramentos no curto, médio e longo prazos.


Tenho lido diversos artigos, assistido e participado de inúmeros debates a respeito de tendências e expectativas para os próximos anos. É fato que essas percepções se baseiam muitas vezes na percepção de como as variáveis que afetam os cenários futuros irão se comportar. É perfeitamente normal também que muitas dessas “visões” de futuro não se concretizem ou que sejam diferentes das percepções que forem desenhadas agora. Porém, este processo de desenho de cenários é uma atividade corriqueira para os analistas de mercado, finanças, design e outras áreas de negócios. Afinal de contas, o planejamento e gestão estratégia são disciplinas naturais e corriqueiras dentro das organizações (ou pelo menos deveriam ser).


Nesse sentido, reúno a seguir alguns dos principais insights de um contexto macro estratégico para apoiar os leitores nas suas atividades de planejamento de negócios, cada qual em seu setor ou departamento.


Cenário atual no Brasil:


1) Desde Março/2020 o país tem vivido diferentes realidades regionais de distanciamento social e de limitação de atividades empresariais. Os resultados até agora são múltiplos: fechamento de empresas ou paralisação temporária de atividades, crescimento do desemprego, queda geral de renda das famílias e aumento do seu endividamento geral, dentre outros.


2) Redução importante da demanda interna de diversas cadeias produtivas, muito em função da paralisação e/ou restrições de funcionamento de várias atividades empresariais. Quando possível, parte da produção que era destinada ao mercado interno foi direcionada ao mercado internacional.


3) Paralelamente, a agenda de reformas da estrutura da máquina pública foi delegada para o 2º plano. A contabilização do crescimento de gastos correntes só será efetivamente medida em 2021, mas há praticamente certeza de que a dívida pública interna tenha crescido fortemente, mantendo a trajetória ascendente do rombo das contas do governo dos últimos quase 10 anos.


4) Os resultados macroeconômicos mais significativos até o momento foram o aumento da desconfiança do mercado investidor (tanto nacional como internacional), queda do poder de compra do Real frente ao Dólar, aumento das taxas de juros e do custo de capital, aumento da inflação e retração econômica.


Cenário atual mundial, considerando as principais economias mundiais:


1) A Zona do Euro ensaia no momento os primeiros passos pós-COVID-19, mesmo embora a realidade social e econômica de cada país seja bastante particular. Os indicadores gerais mostram forte retração da atividade econômica dessas nações, sugerindo que o bloco econômico deverá entrar em recessão em breve. Essa percepção é vista com ceticismo por alguns, mas há uma gama de indicadores que mostram que as contas públicas dos países mais importantes do bloco estão perigosamente ajustadas, principalmente após a adoção de taxas de juros negativas por diversos Bancos Centrais, juntamente com a necessidade de manutenção de estímulos públicos para manutenção da atividade empresarial (via subsídios e/ou proteções legais e/ou normativas).

2) O Japão e Reino Unido estão em recessão técnica, uma vez que suas economias têm mostrado resultados negativos sucessivos nos últimos trimestres (assim como boa parte dos países da América Latina, incluindo o Brasil). É esperado que os resultados de outras economias importantes também apresentem retração daqui em diante, pelo menos na janela dos próximos 12 meses.

3) Números recentes mostram que pode ter surgido uma 2ª onda de contaminação do COVID-19 na Europa, Ásia e Oceania. Os efeitos práticos ainda não foram medidos, mas certamente impactarão ainda mais os resultados macroeconômicos negativos já divulgados, além de estabelecer um novo período de paralisação de atividades empresariais, reduzindo assim a demanda global de produtos e serviços.

4) A China tem demonstrado bons indicadores de recuperação econômica, muito embora seus dados oficiais sejam olhados com muita cautela pelos analistas em razão das potenciais manipulações. O país vem gradativamente retomando seu papel de importante ator nas importações e exportações mundiais, embora se desconfie que uma nova onda de contaminação da doença esteja ativa no país.

5) A Rússia e países do Oriente Médio são parceiros importantes para o Brasil em algumas cadeias produtivas (como no setor alimentício). Ademais, são importantes atores na geopolítica mundial em razão do petróleo. Os países da região, juntamente com os seus fronteiriços (China e Índia, por exemplo) estão atualmente sob tensas relações de poder, o que tem enfraquecido a capacidade das lideranças mundiais de encontrar soluções rápidas para os efeitos da pandemia.

6) Nos Estados Unidos, tem-se um agravamento da situação fiscal do país, paralelamente à interrupção da retomada do crescimento econômico do seu mercado interno.

7) Na América Latina, o Uruguai é o país menos afetado atualmente em termos macroeconômicos, muito porque suas contas públicas internas estejam historicamente equacionadas e também por apresentar uma população de pequena, comparativamente aos seus vizinhos fronteiriços Brasil e Argentina.


Efeitos sobre o Setor de Celulose, Papel e Papelão Brasileiro:


Com base nos aspectos citados, é possível descrever um cenário atual para esta cadeia produtiva no Brasil? Sim. Eu convido aos leitores da Revista O Papel a acompanharem o desdobramento das análises nas próximas edições. Um abraço e boa e boa gestão estratégica.


Artigo publicado originalmente na Revista O Papel/ABTCP - Coluna Gestão e Estratégia

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