• Marcio Funchal

“Apertem os Cintos, o meu Custo Explodiu”

Coluna mensal elaborada à pedido da Revista O Papel/ABTCP - Coluna Estratégia e Gestão - Edição de Abril de 2022.


O cenário de crescimento de custos e preços é fato consolidado em todo o mundo. Praticamente todas as cadeias produtivas globais tiveram impacto em decorrência dos múltiplos fatores que têm interagido no ambiente produtivo. Os problemas conectam conflitos logísticos (excessos e faltas de produtos e meios de transporte em diferentes partes do globo), desequilíbrio entre oferta e demanda de produtos e serviços em razão da paralisação forçada de atividades econômicas em praticamente todos os países (em função da pandemia do Covid-19), forte estímulo monetário realizado pelas principais economias mundiais, o que elevou o endividamento da já fragilizada economia mundial (a qual já mostrava sinais de problemas desde a crise financeira mundial do subprime em 2008) e, mais recentemente, a guerra em curso na conexão dos continentes europeu e asiático.


Os efeitos conjuntos mais evidentes desse cenário são a escalada de preços e de custos em vários aspectos do cotidiano. E se isso afeta o cidadão comum, certamente também afeta a operação das empresas. No cenário de negócios das companhias de celulose e papel brasileiras, viu-se recentemente a mesma situação. Em 2020 e 2021, por exemplo, o preço da tora de pinus e eucalipto, no país, mais do que dobrou, dependendo da região.


Para quem não se recorda, em meados de 2019, vários produtores florestais de pinus estavam simplesmente abandonando as toras de 1º desbaste de pinus na floresta, pois o preço de venda da época não pagava os custos operacionais. O mesmo problema ocorreu com o eucalipto em várias partes do país, por razões diversas. O incremento de preços também ocorreu recentemente para o mercado atacadista de celulose e papel. Claro que cada segmento tem suas características próprias e teve um comportamento particular, principalmente em razão do tipo de produto e mercado (interno ou externo).


O que é importante ressaltar, contudo, é que num choque econômico mundial como o que estamos vivenciando desde o início de 2020, é que os impactos sobre o final da cadeia produtiva são normalmente mais imediatos, ou seja, é mais fácil repassar aumentos para o consumidor final. Contudo, num segundo estágio, é perfeitamente esperado que haja a correção de valores para os demais participantes do início e meio da cadeia produtiva (produtores do setor de base e de bens e serviços intermediários). Assim, logo após a correção de preços ao consumidor final, sempre haverá uma correção de valores de custos de produção.


Como não poderia ser diferente, o setor brasileiro de celulose e papel está, neste momento, vivenciando o cenário de explosão de custos em todas as etapas do seu processo produtivo.

Para fins comparativos, os balanços financeiros das companhias mais representativas do setor mostram que houve um crescimento do volume de vendas e do faturamento entre 2017 e 2022 (parte do aumento de produção se deu em decorrência de expansões industriais). Em termos de faturamento, temos empresas com crescimento superiores a 60% no período. Contudo, o crescimento dos custos de produção foi também evidente: todas as empresas cresceram seu custo total de produção, em proporções ligeiramente abaixo das suas taxas próprias de aumento de faturamento (tanto na famosa conta do custo caixa – que por si só é mais importante para jornalistas do que para a gestão econômica de um negócio de ciclo produtivo longo - como na composição da conta de custo global de fabricação).

Neste artigo, o leitor encontrará uma coletânea de dados que sintetizam em parte o forte crescimento de custos produtivos no país. Foram reunidos indicadores que impactam diretamente os custos da produção rural, que certamente irão reduzir a margem das empresas de papel e celulose. Como harmonizar as informações inteligentes de preços e custos da produção silvicultural no Brasil é sempre uma tarefa que demanda energia extra, tracei um paralelo com a produção agrícola nacional, cadeia produtiva muito mais aberta para o diálogo e compartilhamento de sua realidade. Importante destacar que todas as séries de preços consideram valores nominais da época.


A Figura 1 mostra que as indústrias de celulose e papel tiveram crescimento acumulado do faturamento de aproximadamente 50%, desde 2017. Este aumento é decorrente tanto do crescimento da produção (e consequente aumento do volume de vendas) como nos preços de venda. Contudo, setorialmente, este crescimento pode ser considerado tímido, quando se vê que os índices de crescimento de preços gerais no país variaram entre 27% e quase 80%, no mesmo período (ver Figura 2).

Em outra comparação (Figura 3), se vê que os preços da produção rural brasileira de hoje são muito superiores aos patamares de cinco anos atrás. Esse mesmo fenômeno certamente também está ocorrendo com a produção florestal no Brasil, basta cada empresa produtora consultar seus dados para perceber este cenário. A Figura 4 mostra que o custo para usar terras de terceiros mais do que dobrou no mesmo período, o que afeta claramente o custo de produção das companhias que possuem plantios em terras arrendadas.

Recentemente os jornais têm dado atenção ao problema dos fertilizantes, já que há tensão sobre abastecimento mundial deste tipo de produto em razão do prolongamento da guerra Rússia – Ucrânia. A Figura 5 mostra a curva de preços médios de importação de fertilizantes no país, bem como o histórico do volume de compras internacionais. A Figura 6 comprova que a escalada de preços médios mundiais do produto segue a mesma tendência de aumento vislumbrada pelo Brasil.

Em termos de insumos, os defensivos agrícolas também tiveram crescimento importante de preços: são hoje cerca de 60% maiores do que os praticados em 2017. Já os combustíveis acumulam um crescimento de preços de quase 90% para o mesmo período, e seu efeito dominó ocorre em praticamente toda a economia.

Por fim, os últimos indicadores retratam o custo operacional no campo. A Figura 9 mostra que o custo hora/máquina do equipamento mais simples do produtor rural (trator de pneus) cresceu em média entre 50% e 60% desde 2017. Nesse custo estão contemplados todos os itens operacionais e de manutenção do equipamento, incluindo o salário do operador. Já a Figura 10 mostra que o crescimento do valor de compra do mesmo tipo de equipamento aumentou em média entre 130% e 160% no período. Isso comprova que a gestão de Opex e Capex das empresas precisa ser adequadamente dimensionada, de forma a equilibrar a estratégia financeira do negócio no médio e longo prazos.

Com base nestes fatos, as empresas do setor certamente já estão sendo impactadas por aumento de custos operacionais de produção florestal e industrial, seja por meio de sua estrutura própria, seja pelo aumento de custos pagos aos seus empreiteiros e terceirizados. Resumidamente, nunca foi tão importante a estratégia de preservação de caixa e o alinhamento da operação e estratégia futura.


Coluna mensal elaborada à pedido da Revista O Papel/ABTCP - Coluna Estratégia e Gestão - Edição de Abril de 2022.


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