• Marcio Funchal

Dados do PIB do 2º Tri/2020 Confirmam a Trajetória Crescente de Recessão Mundial

Artigo publicado originalmente na Revista O Papel/ABTCP - Coluna Gestão e Estratégia Set/2020



Dando continuidade às análises da situação econômica das principais economias mundiais, apresentadas na coluna de Gestão e Estratégia do mês de Agosto de 2020 da Revista O Papel, trago aos leitores neste mês um resumo dos números mais recentes do PIB (especificamente, o 2º Trimestre de 2020).


Mesmo que alguns países não tenham divulgado oficialmente seus números mais recentes (como é o caso da Argentina, Espanha, México e outros), os resultados do Produto Interno Bruto (PIB) do 2º trimestre de 2020 mostram uma situação clara para economia mundial: O mundo está, de maneira geral, em recessão.


Na macroeconomia, diz-se que um país encontra-se em recessão técnica quando apresenta crescimento negativo do PIB por 2 períodos consecutivos. O PIB é mensurado pela maioria dos mais de 190 países e territórios autônomos ou semiautônomos. Pela complexidade das medições das contas nacionais, os resultados são divulgados trimestralmente, embora haja uma delay de aproximadamente de 2 a 3 meses para a sua divulgação oficial. Isso explica porque só agora, em Setembro, tenhamos apenas parte das economias mundiais com seus dados do 2º trimestre (abril a junho) devidamente publicados.

Cenário mundial atual – dados agregados


A Figura 1 mostra a evolução do PIB trimestral dos grandes agrupamentos multinações: OCDE, G-20 e G-7.

  • A OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico ou Econômico) reúne atualmente 37 países, desde os mais ricos e desenvolvidos até os em desenvolvimento. Brasil e China, por exemplo, não fazem parte atualmente, mas Estados Unidos, Canadá e boa parte dos Europeus se fazem presentes.

  • O G-20 reúne os Bancos Centrais das 19 maiores economias mundiais, mais a União Europeia. Juntos, correspondem por 90% do PIB mundial e 80% do comércio internacional.

  • O G-7 agrega os 7 países mais industrializados no mundo, mais a União Europeia. Como se diz na linguagem de bastidores do mundo das finanças seria o equivalente ao “clube dos ricos e poderosos”.

Embora não se tenha publicamente os dados consolidados do 2º Tri/20 para o grupo do G-20, é fácil perceber que a trajetória do 1º Trimestre já aponta para uma retração similar ou até mais acentuada do os demais grupos destacados (OCDE e G-7). Com base nesses dados, e considerando a retração do PIB por 2 trimestres consecutivos, é que se pode concluir que o mundo está em recessão econômica desde junho do presente ano.


Cenário mundial atual, considerando as principais economias mundiais:


Nas Figuras 2 a 5 estão disponíveis as trajetórias trimestrais do PIB para as principais economias mundiais, com destaque para aquelas cujos dados econômicos estão atualizados e que o Brasil tem bom relacionamento comercial. Para fins de comparação, nestas mesmas Figuras, foi representada a trajetória do PIB do G-7. A ideia é avaliar o desempenho econômico dos países mais ricos e industrializados do globo, em relação a cada uma das nações destacadas individualmente.


A Figura 2 mostra os resultados da Argentina, Brasil e Chile. Mesmo que a Argentina não tenha ainda publicado suas contas nacionais, o mercado vê fortes indícios de uma retração econômica severa para o 2º Tri/20. O Chile apresentou um comportamento recente no mínimo interessante: uma retração significativa no final de 2019, seguida de uma recuperação vigorosa (em comparação com os seus resultados trimestrais dos últimos anos) no 1º trimestre, para agora desabar no 2º trimestre. O Brasil, como o mercado já previa, apresentou resultado negativo bastante negativo no 2º trimestre, um pouco menor do que o patamar do G-7. Dessa forma, os 3 países se encontram atualmente em recessão técnica.

A evolução trimestral do PIB do Canadá, China e Estados Unidos está demonstrada na Figura 3. Canadá e Estados Unidos demonstram comportamento muito simular entre si e os demais países do G-7: todos em recessão técnica.


O fato a comentar é o desempenho da China, que vinha apresentando crescimentos trimestrais constantes ligeiramente acima dos demais entre 2018 e 2019, mas que teve forte retração no 1º Tri/20. Mais surpreende é a retomada do crescimento já no período seguinte, divergindo praticamente de todas as grandes economias mundiais. Cabe ressaltar que o mercado financeiro olha com ressalvas os indicadores macroeconômicos chineses, um razão da falta de transparência do governo comunista para com seus parceiros comerciais internacionais.

Na Figura 4 estão disponíveis os resultados dos parceiros europeus. Foram selecionados os resultados globais da União Europeia, mas selecionada isoladamente a Alemanha por ser atualmente a economia mais forte da região. O Reino Unido também foi escolhido em razão de sua saída oficial da referida união aduaneira em Janeiro de 2020. Os números mostram que o Reino Unido teve forte retração econômica em 2020, atingindo um patamar bem mais dramático do que os demais países selecionados. Já a Alemanha apresenta resultados ligeiramente melhores do que seus parceiros da União Europeia, embora o comportamento geral da evolução histórica do PIB no período seja bastante similar.

O comportamento geral do PIB da África do Sul, Índia e Japão pode ser visto na Figura 5. Os 2 primeiros são bons cases de países emergentes fora da polaridade Europa X EUA. O Japão por sua vez é uma economia madura, mas que vem enfrentando dificuldades de estagnação nos últimos anos.


Deste agrupamento, a Índia foi a recordista de crescimento negativo do PIB no 2º Tri/20, embora a África do Sul também tenha apresentado resultados ruins expressivos, bem superiores aos países do G-7. O Japão, mesmo apresentando uma queda recente menor do que os demais, tem a situação agravada, uma vez que a redução do PIB já vem ocorrendo desde o 4º Tri/19 (perfazendo assim 3 trimestres consecutivos de retração econômica).


Causas e Perspectivas


Como demonstrado, são poucos os países de representatividade mundial que não se encontram em recessão econômica. Além disso, é fácil perceber que a deteriorização da economia mundial teve seu início a partir de 2020, quando os efeitos da COVID-19 foram sentidos em escala mundial.


Uma das principais medidas públicas de prevenção ao alastramento da doença foi o fechamento de fronteiras e o isolamento total ou parcial dos cidadãos. A severidade e duração do lockdown foram distintas entre os países, assim como o período de paralisação das atividades de comércio, indústria e serviços. Contudo, como já havia sido previsto desde o início do ano por diversos analistas, os efeitos destas medidas seriam catastróficas na economia mundial, fato este comprovado agora com os dados oficiais.


Mas e as perceptivas? Já se sabe que 2020 será um ano de forte retração economia pois os dados ao final do 1º semestre são bastante negativos. Contudo, há fortes incertezas dos rumos da saúde dos cidadãos de países que já abandonaram as medidas de isolamento: começam a surgir evidências de uma nova onda de contaminação do COVID em países Europeus e Asiáticos, o que afetaria ainda mais os mercados econômicos já debilitados.


A OCDE fez um exercício de cenários para o PIB consolidado de 2020 para diversos países. Para tanto, considerou os seguintes cenários de projeção:

  • Cenário 1 - prevê apenas 1 onda de contágio do COVID-19: projeta o PIB 2020 considerando que o COVID-19 irá apresentar apenas uma única onda de contágio mundial, que deu-se em maior escala entre dez/19 até a metade de 2020;

  • Cenário 2 - prevê 2 ondas de contágio do COVID-19: este cenário projeta o PIB 2020 considerando a onda de contágio que já ocorreu (cenário 1), adicionada de nova onda de contágio ainda no 2º semestre de 2020.

Os resultados projetados para o PIB 2020 dos países avaliados neste artigo estão resumidos na Figura 6. Fica evidente que, considerando uma 2ª onda de contaminação, a recessão econômica será mais importante do que os resultados projetados para apenas uma onda de contaminação.

É prematuro afirmar que a recuperação da atual crise ocorrerá já em 2021. É fato que os Bancos Centrais preferem trabalhar com um cenário otimista, também com o intuito de criar um ambiente propício para os negócios e investimentos. Contudo, num cenário mais conservador de análise de cenários futuros, há grande quantidade de variáveis de análise mostrando um futuro de curto prazo macroeconômico turbulento e incerto.


Como fã das análises de cenários e de desenho de estratégias, prefiro sempre recomendar: esteja preparado para os piores cenários. Se no futuro eles se mostrarem mais brandos do que o planejado, sua empresa se sairá ainda mais fortalecida, pois é a capacidade de se adaptar até para as piores situações que a faz campeã. Sucesso, saúde e até a próxima edição.


Artigo publicado originalmente na Revista O Papel/ABTCP - Coluna Gestão e Estratégia Set/2020

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