• Marcio Funchal

Como está a Confiança do Empresário Industrial Brasileiro?

Coluna mensal elaborada à pedido da Revista O Papel/ABTCP - Coluna Estratégia e Gestão - Edição de Novembro de 2021.


Nos aproximamos de mais um final de ano e todas as atenções da gestão empresarial se concentram para finalizar mais este ciclo de negócios. Paralelamente, a gestão da empresa também já se prepara para o novo ciclo de negócios desenhado pelo planejamento estratégico e operacional dos próximos anos.


E dentro dessa ótica, a coluna deste mês traz uma análise de como a confiança do empresário industrial brasileiro tem se comportado nos últimos anos. Para tanto, separei uma pesquisa bem interessante da CNI – Confederação Nacional da Indústria – sobre o tema. Nesta pesquisa, o empresário responde um conjunto de questionamentos sobre sua confiança, usando dois diferentes pontos de vista:

  • Qual a percepção da situação atual em relação aos últimos 6 meses: as respostas variam entre “melhorou” e “piorou” em diferentes escalas.

  • Qual a expectativa dele para os próximos 6 meses: com respostas variando entre “confiante” e “pessimista” em diferentes escalas.

Dessa forma, a pesquisa une, em cada período de medição, um índice de confiança em relação ao passado e outro com a expectativa do futuro. Para apoiar as análises, aos resultados da Indústria de Celulose e Papel foram adicionados comparativamente os números da Indústria da Madeira e da Indústria da Transformação como um todo.


O Índice de Confiança é mensurado em uma escala de 0 a 100. Valores abaixo de 50 significam situação de pessimismo ou falta de confiança. Já os valores acima de 50 mostram otimismo ou confiança do empresário. A posição central (índice 50) é uma relação de neutralidade.


Na Figura 1 se pode ver a confiança do empresário considerando a sua visão com relação aos 6 meses anteriores à data de cada pesquisa. Neste recorte, os resultados são mensais desde 2010. É possível perceber que a confiança foi retraindo gradativamente até o final de 2015, no auge da crise econômica brasileira. A partir de então, o índice tem seguido uma trajetória ascendente, apesar da forte queda do 1º semestre de 2020, em razão da crise sanitária mundial.


Já a Figura 2 mostra a confiança do empresário sob a ótica da perspectiva futura (próximos 6 meses em relação ao momento de realização da pesquisa mensal). Inicialmente é fácil perceber que o comportamento geral da confiança do empresário industrial sob a perspectiva do passado e sob a do futuro são bastante semelhantes.


Contudo, os números mostram que, no mesmo período, o índice de confiança com olhar para o futuro é normalmente maior do que o índice com olhar para o passado (ou seja, a Figura 1 e Figura 2 mostram praticamente o mesmo comportamento histórico; contudo, os índices da Figura 2 estão como em um “degrau acima” daqueles apresentados na Figura 1). Por último, cabe destacar que a Indústria de Celulose e Papel tem resultados muito similares aos da Indústria da Transformação. Por outro lado, os dados da Indústria da Madeira se descolam das demais em vários períodos do horizonte avaliado, mostrando dessa forma que essas cadeias produtivas enfrentam realidades de negócio distintas.

Como as variações ao longo do ano podem sofrer influência de eventuais sazonalidades, a Figura 3 mostra as mesmas séries do Índice de Confiança, mas agora com resultados anualizados. De imediato, o efeito do “degrau” entre os resultados fica mais nítido: o empresário industrial brasileiro é tipicamente otimista, uma vez que o nível de confiança com a perspectiva dos próximos meses é maior do que a sua avaliação de confiança com os 6 meses anteriores.


Além disso, é fácil perceber agora o descolamento de resultados da Indústria da Madeira em relação às demais indústrias. Porém, é interessante notar uma nova tendência ocorrida após 2019/2020. Historicamente, o nível de confiança do empresário da Indústria da Madeira foi menor do que o das outras Indústrias destacadas. Essa situação se inverte completamente a partir de 19/20, quando o otimismo do empresário desta Indústria ultrapassa os demais, demonstrando que a aposta no bom desempenho dos negócios é bastante forte, pelo menos no curtíssimo prazo.

Por fim, a Figura 4 trás uma extrapolação dos dados da pesquisa CNI. A pesquisa em si não faz essa análise, mas já que constatamos pelos dados históricos que o empresário industrial é tradicionalmente mais confiante com o seu futuro, decidimos medir então qual é esta “margem” entre as percepções com foco no futuro e foco no passado.


Para tanto, com base nos resultados históricos médios anuais, concluímos que a confiança com base no futuro foi superior à confiança com base no passado em todos os últimos 11 anos, variando entre 15 e 42%. Interessante notar as diferenças de percepção de confiança em cada ano, e que o impacto em cada Indústria foi significativamente diferente. São exemplos dessa característica os anos de 2013, 2015 e 2020. Além disso, é interessante notar que com base nesta extrapolação, se percebe que o empresário da Indústria da Madeira é, na média, o que tem a maior diferença entra a confiança e otimismo do futuro em relação ao passado. Já o empresário da Indústria de Celulose e Papel é exatamente o oposto, mostrando que seu nível de confiança é mais equilibrado entre futuro e passado, provavelmente por operar em um mercado mais estável e gerenciável em termos estratégicos.



Coluna mensal elaborada à pedido da Revista O Papel/ABTCP - Coluna Estratégia e Gestão - Edição de Novembro de 2021.



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