top of page
  • Foto do escritorMarcio Funchal

BRASIL: Um Resumo do Cenário Macroeconômico Recente

Coluna mensal elaborada à pedido da Revista O Papel/ABTCP - Coluna Estratégia e Gestão - Edição de Janeiro de 2023.

Para iniciar o ano de 2023, preparei nesta edição um apanhado geral de indicadores macroeconômicos do Brasil. Nada mais oportuno do que o momento atual, tendo em vista a introdução de novo modelo econômico apresentado pela equipe do novo presidente. Para facilitar as análises, todos os indicadores foram capturados utilizando a mesma janela temporal: últimos 10 anos.


O primeiro indicador mostra a trajetória do Risco País (ver Figura 1). Pela ótica do investidor (estrangeiro principalmente), o pico de risco se deu na virada dos anos 2015 e 2016. Nos últimos 3 anos as tensões ficaram mais estáveis, embora a crise sanitária de 2019 tenha trazido o risco novamente para patamares mais elevados. Já a Taxa de Câmbio (Figura 2) seguiu forte trajetória de desvalorização do Real em todo o período selecionado, com destaque para o momento do inicio das paralizações de produção durante a crise sanitária. Desde então a faixa de câmbio entre R$5,00 e R$5,50 tem sido a realidade nacional.


Para os próximos anos, as previsões macroeconômicas do governo, dos gestores de investimentos e grandes bancos é de aumento da taxa de risco em várias economias mundiais (incluindo o Brasil), principalmente com a constante presença de indicadores ruins das maiores economias mundiais (que apontam para uma recessão iminente) e panorama geral das políticas públicas que o país adotará. Estes mesmos aspectos pressionarão a moeda local para continuidade da trajetória de desvalorização ultrapassando facilmente a barreira dos R$6,00 já em 2023.

A Figura 3 mostra a trajetória da Selic nos últimos 10 anos. Vemos claramente uma escalada do indicador para níveis próximos a 2015, pico da última crise financeira brasileira. Com reflexos em toda a economia (balizador para as taxas de juros de empréstimos e investimentos), a expectativa é de que o Banco Central mantenha a Taxa Selic em duas casas decimais pelo menos nos próximos 3 anos.


Já a Figura 4 mostra a evolução do saldo da Balança Comercial brasileira. Desde 2014 o país vislumbra superávits anuais, embora tenhamos visto uma queda entre 2017 e 2019. Para os próximos anos, as expectativas dos agentes são de manutenção do crescimento anual, aproveitando os espaços de mercados internacionais já conquistados.

A evolução do crescimento do PIB está representada na Figura 5. Percebe-se que, nos 10 anos do recorte, houve encolhimento do PIB em 3 deles, porém em larga escala (taxas de retração acima de 3,5% ao ano). Nos períodos de crescimento positivo, apenas 2021 representou uma taxa anual superior a 4%. Os analistas projetam um crescimento anual médio (nominal) de 0,5% a 1,5% para os próximos anos.


No tocante à Produção Industrial, a Figura 6 mostra uma trajetória dramática, já que os níveis atuais representam uma retração da ordem de 15% em relação ao patamar de 10 anos atrás. Apesar disso, o país mantém uma estabilidade do nível de produção desde 2015, com queda mais acentuada em 2020, em razão das paralizações da economia impostas pelo Estado. As projeções dos especialistas para este indicador não são otimistas, pois são esperados desde crescimentos anuais ligeiramente negativos até, no lado oposto, aumentos anuais de pequena monta (menos de 2%). Assim, numa média simples das diferentes visões, espera-se manutenção dos níveis de produção no curto prazo.

A evolução do Setor Varejista está disponível na Figura 7. Percebe-se claramente o efeito sazonal dos finais de ano, assim como os efeitos imputados pelas paralisações na pandemia, em 2020. Em resumo, as vendas atuais tiveram um crescimento pouco expressivo nos últimos 10 anos (menos de 3% no acumulado), mesmo com forte aumento das vendas on line e fortalecimento dos canais de distribuição. Para o curto prazo, os analistas preveem estabilidade para este indicador, com possibilidade de pequenos incrementos anuais (não superiores a 2%).


Já a Figura 8 apresenta a evolução do volume de vendas do Setor de Serviços. Os dados apontam para um crescimento do setor a partir de 2017, apesar dos impactos do fechamento da economia durante a crise sanitária em 2020. Contudo, no acumulado dos 10 anos, as vendas de serviços hoje são apenas 5% maiores do que no início do período. Assim como no caso da Indústria e Varejo, as previsões macroeconômicas para o Setor de Serviços, do governo, dos gestores de investimentos e grandes bancos, consideram um pequeno crescimento anual do setor no curto prazo (algo entre 2% e 5% ao ano).

No tocante ao Desemprego, a Figura 9 mostra rápido crescimento entre 2012 e 2019, substituído por forte retração no final do período selecionado. As previsões futuras dos analistas divergem significativamente, mas estacionam em índices de desemprego entre 8 e 11% ao ano, para os próximos 3 anos.


A Figura 10 mostra que as contas públicas pioraram significativamente nos últimos anos, principalmente após 2013, quando o país deixou de apresentar superávit primário (saldo das contas públicas antes do pagamento dos juros da dívida), o que significa que o governo gastou mais do que arrecadou por vários anos. O ano de 2020 foi recordista, em razão dos gastos públicos com a crise sanitária. Este cenário de gastança só foi revertido em 2022, quando novamente as contas do governo passaram a apresentar saldo positivo. Contudo, as previsões dos analistas são unânimes em apontar para novo retrocesso do gasto público desenfreado, uma vez que o plano econômico no novo governo já anunciou que não cumprirá metas de superavit. No curto prazo, prevê-se retorno do déficit aos patamares de 2015 e 2016, na casa dos 2% do PIB ao ano.

Ainda no tocante ao endividamento do país, a Figura 11 mostra que nos últimos 10 anos houve forte crescimento da dívida mobiliária brasileira (somando-se os títulos e bonds emitidos pelo Governo Federal e Banco Central). Hoje somente este componente da dívida equivale a cerca de 60% do PIB. Os analistas projetam que, com as recentes medidas de rompimento do teto de gastos e flexibilização da austeridade fiscal, a dívida mobiliária atinja rapidamente patamares próximos a 80% do PIB nos próximos anos.


Por fim, a Figura 12 resume o crescimento do “dinheiro” em circulação no Brasil (Agregado Monetário M1 é o total de papel moeda em circulação na economia que não está relacionado com investimentos, representado pelo saldo bancário no Banco Central e dos demais agentes do sistema bancário oficial). Este rápido crescimento é explicado pela constante “impressão” de dinheiro feita pelo Banco Central, como forma de honrar suas obrigações de pagamento. Importante destacar que o Estado só possui três formas básicas de se capitalizar: (a) aumentar a cobrança de impostos, (b) contrair mais dívidas ou empréstimos (por meio da dívida mobiliária, por exemplo) ou (c) emitir mais dinheiro. Todas estas ações, isoladas ou em conjunto, reduzem o poder de compra da moeda oficial, ocasionando então na inflação da moeda (que erroneamente é entendida como aumento de preços). Segundo os especialistas consultados, espera-se continuidade do rápido crescimento do M1 no curto prazo.

Levando em consideração os indicadores apresentados, é fácil perceber que a economia do país estará sob forte pressão nos próximos 2 a 3 anos, com grandes desafios para o setor empresarial. Assim, é altamente recomendável que as empresas revejam seus cenários de negócio e fortaleçam as estratégias de longo e curto prazo.


Coluna mensal elaborada à pedido da Revista O Papel/ABTCP - Coluna Estratégia e Gestão - Edição de Janeiro de 2023.


Comments


bottom of page